eletroboogie |
9.3.05
Muita gente me pergunta como foi que comecei a escutar rock.
Muita gente não sabe que tenho dois irmãos mais velhos: Nelson e Niltinho (que tocam no Kongo comigo) Muita gente não sabe que comecei a escutar rock em 1973, por causa dos meus dois irmãos... Óbvio que eu já ouvia rádio e gostava de muita coisa que ouvia mas meu interesse só foi realmente maior quando passei a manusear LPs. Nessa época os sons que bateram realmente forte, os que me chamaram a atenção, foram artistas que faziam parte da cena glam/glitter, dois em especial: SLADE e GARY GLITTER. Algumas pessoas falam que o Gary Glitter é caído. No geral é mesmo, mas digo que o cara tem uma coleção de singles matadores e foram justamente esses singles que me conquistaram. O primeiro contato que tive com o pedófilo foi através de um "best of" fooooooda de bom. Só clássicos. Com o Slade foi a mesma coisa, através de uma coletânea chamada Sladest. O engraçado é que a sensação que tenho quando reescuto esses artistas hoje em dia é a mesma que tive quando os ouvi pela primeira vez: UMA VONTADE LOUCA DE SAIR DANÇANDO E TOCANDO MINHA AIR GUITAR. De repente é essa sensação, esse estímulo primordial, que acabou me levando anos depois a me tornar dj. Sempre adorei dançar e adoro ver as pessoas dançando as músicas que gosto, porque procuro só tocar coisas que realmente gosto. Na verdade, pra mim a dança foi uma excelente terapia e uma forma que encontrei pra me livrar da tremenda timidez que tenho. Vocês podem achar que é mentira, mas sou TÍMIDO pra cacete e depois que comecei a freqüentar clubes é que me tornei um ser mais sociável. Tem uma coisa engraçada...tanto o Gary Glitter quanto o Slade tiveram várias músicas regravadas por dois outros artistas. O Gary pela JOAN JETT (ela tem umas versões até melhores que as originais) e o Slade pelo QUIET RIOT (que no meu modo de ver ficaram ridículas) e o OASIS fez uma cover pro Slade (Cum on Feel The Noize) e tem uma citação a Hello! Hello! I'm Back Again do Gary Glitter em Hello (do álbum (What's The Story) Morning Glory?) Depois dessa fase inicial sob influência dos meus irmãos, comecei a me interessar em ouvir outras coisas, o mais legal dessa época foi quando a Globo resolveu lançar um programa aos sábados direcionado pro publico jovem, ele era apresentado pelo Nelson Motta e se chamava Sábado Som. Logo no primeiro programa eles apresentaram o hoje clássico PINK FLOYD LIVE AT POMPEII, que consiste numa gravação de um show do PF (tocando material do MEDDLE) dentro das ruínas de Pompéia - era muita viagem prum garoto de 11 anos, não entendi nada mas as imagens da banda tocando envolta em nuvens de fumaça marcaram. Através desse programa passei a conhecer algumas coisas que mudaram minha cabeça, passei a gostar das bandas de hard rock com pegada soul: HUMBLE PIE, FACES, FREE, TRAPEZE entre outras....Essas bandas aliavam guitarras pesadas com uma faceta bem negróide - só pra constar, os vocalistas das bandas eram respectivamente: STEVE MARRIOTT, ROD STEWART, PAUL RODGERS e GLENN HUGHES , todos eles fantásticos sendo que o Marriott e o Hughes são meus prediletos (aliás, o meu primeiro LP foi do Trapeze: You're Are The Music... We're Just The Band). Isso nunca me impediu de continuar gostando dos glitters, não. Além do que foi por aí que descobri o BOWIE (sempre passava uma gravação de The Jean Genie no SS). Logo após a esse período (fins de 73 / início de 74) eu me mudei pra Brasília e meus irmãos ficaram no Rio. Fui forçado a andar com minhas próprias pernas. Engraçado que por esse tempo estava ficando muito forte a corrente do rock progressivo - YES, EMERSON, LAKE & PALMER e JETHRO TULL eram os mais famosos no meio da molecada - mas eu nunca fui muito chegado a esse tipo de som, apesar de tê-los ouvido muito. Tive a sorte de ficar amigo de caras que gostavam de rock mais "cru" também e descobri várias coisas legais : LED ZEPPELIN, THE WHO, DEEP PURPLE, CREAM, BLACK SABBATH, NAZARETH.entre outros.Até hoje, amo de paixão alguns discos que ouvi pela primeira vez lá - Houses of the Holy, Masters of Reality e Who's Next principalmente; mas eu sentia que ainda faltava algo. Esse não era o MEU som........ PS - apesar de estar falando mais sobre rock tenho que avisar que já gostava bastante de música negra, apenas não me interessava em comprar. Essa era a fase aúrea de BIG BOY e cia. Eu escutava direto os programas dele na Rádio Mundial 860 AM. Isso me levaria anos depois a viagens de resgate desses sons que ficaram no meu inconsciente. 1975 passou bem rápido, cada vez mais me envolvia com o som do THE WHO (Tommy, A Quick One e o Live At Leeds) e do LED ZEPPELIN (I, II, III, IV e Physical Graffiti), foi quando escutei pela primeira vez e pirei com dois guitar heros: JIMI HENDRIX e JEFF BECK. Lembro-me que não parava de escutar tanto o AXIS: BOLD AS LOVE quanto o BECK-OLA. 1976, foi o ano em que conheci um menino que havia acabado de voltar de Nova Iorque e que havia trazido de lá a coleção completa do VELVET UNDERGROUND e mais duas bandas que bateram forte em mim: STOOGES e NEW YORK DOLLS. Elas eram pesadas, barulhentas, referentes a coisas que eu já conhecia, mas absolutamente divertidas e tesudas pra mim. Fábio, esse era o nome do menino, também gostava muito de glitter rock e conversávamos direto sobre BOWIE, BOLAN e cia. Foi ele que me apresentou o ROXY MUSIC também, fiquei fascinado pelo som e pelas capas dos discos. Eu, cada vez mais, estava indo em direção a um som visceral e cru, apesar de ser fascinado pelo approach sofisticado blasè/decadente tanto do VU quanto do Roxy. Por essa época comecei a cavucar também as origens do rock. Descobri Jerry Lee Lewis, Buddy Holly e Eddie Cochran. Foi nessa época que comecei a me interessar seriamente pelos BEATLES. Era engraçada a relação que a garotada da minha idade tinha com os Beatles. Pra gente era uma banda pros caras mais velhos, era ultrapassada e fora de moda. Mas bastou sentar pra ouvir pela primeira vez o ABBEY ROAD, pra que eu ficasse completamente apaixonado por eles e corresse atrás pra conhecer os outros discos Mas eu só me renderia de vez mesmo alguns anos mais tarde quando entendi o que era o RUBBER SOUL e o REVOLVER. Informação sobre música nessa época se restringia a revistas e jornais importados. Mas alguns jornalistas abnegados resolveram criar uma revista que muito me ajudou a conhecer os grandes nomes que já haviam aparecido no cenário rock. O nome dela: ROCK, SUA HISTÓRIA E SUA GLÓRIA. Foi através dela que pela primeira vez li as histórias de muitos desses meus heróis da época. E foi assim que cheguei a 1977, o ano quem mudou completamente minha cabeça musical. O ano que descobri MEU som.... 7. Posso considerá-lo meu número da sorte. Sempre que ele está envolvido algo de bom acontece comigo. Imagine em dobro!!! 77 - o ano que tudo mudou, o ano que eu descobri o que eu era e o que eu ansiava e tanto procurava. 1977, meu ano!!! Imaginem um moleque que volta aos 15 anos pro Rio e se descobre sozinho!!! Seus irmãos tinham outros interesses - nessa idade um ano de diferença na verdade representa um gap brutal. Gostavam de coisas que eu não gostava, descobriram coisas de MPB que eu abominava e ainda abomino, ouviam jazz rock, em suma nada me agradava. Minto! Eles me apresentaram BOB MARLEY - Rastaman Vibration era o álbum, novidade pra mim aquele ritmo malemolente e ao mesmo tempo pulsante, puro tesão. Roots, Roooooock, Reggaeeeeeee...This Is Reggae Music. Comecei a pirar, mas queria mais...não era isso ainda. Descobri JAMES BROWN - Mr Dynamite - o álbum era Sex Machine. Get Up...pirei mais um pouquinho mas ainda não era isso....(Esses sons e esses discos tiveram uma importância considerável pra mim poucos anos depois, forjaram meu gosto rumo a um leque amplo de sons e ritmos - a primeiro ouvir pra depois julgar se era bom ou não, porque por incrível que pareça tem gente que fala que algo não é legal ou é demais sem nunca tê-lo ouvido antes). Um sábado do mês de agosto. Por incrível que pareça a Globo transgredindo sua mesmice e chatice, em plena tarde de sábado passa uma banda de Nova Iorque tocando ao vivo numa espelunca que parecia um teatro mas não era um teatro. Quatro caras com calças jeans rasgadas e jaquetas de couro tocando um som simplório e ingênuo, mas com tanta raça e com tanto tesão que aquilo que parecia ser o NADA se transforma no TUDO. Puta que o pariu!! O que era aquilo??? Será que descobri o que eu procurava?? O nome? RAMONES!!! As músicas??? Blitzkrieg Bop emendada em Loudmouth... Aquele som, aquelas imagens ficaram martelando na minha cabeça durante a semana inteira. No sábado seguinte outra porrada... Um cara feio pra caralho, com os dentes podres vestindo uma calça de couro pra lá de ensebada e uma camiseta toda rasgada onde ainda se lia DESTROY, berrando no microfone a coda da música: NOOOO FUUUTUURE......FOR YOUUUUUUUUUUUUUUU. Cortei meu cabelo comprido na segunda feira. Na terça feira sai a cata do álbum, daqueles caras que eram um pouca coisa mais velhos que eu mas que faziam o som que eu queria ouvir e cantavam as letras PRA MIM. Bodies, Liar, Submission, Problems, Holidays In the Sun. Achei aquele LP com a capa amarelo ovo com uma tarja cor de rosa cortando-a na diagonal em uma loja na Avenida Ministro Edgard Romero em Madureira. Peguei meu suado dinheirinho e paguei aquele disco (é saiu aqui quase que ao mesmo tempo que na Inglaterra mas só havia um na loja, já que a gravadora nada fez pra divulgar aquele bando de moleques imundos por aqui). Never Mind The Bollocks Here's The SEX PISTOLS, era o disco. Escutei essa porra de disco por meses a fio até entender o que era aquilo, o que era aquela raiva, o que era aquele tesão todo. Acabei infkuenciado meu irmão mais velho, Nelson, e ele pirou nos caras também. Não como eu claro; nada comparado ao turbilhão que esse som causou na minha cabeça e na minha concepção - daí pra frente - do que era / é arte..... Poucos meses depois comprei outro disco que junto ao Ramones e ao Sex Pistols me transformaram no que sou até hoje. Um eterno contestador do estabelecido e do que querem nos impor. O disco? THE CLASH. Quem me conhece bem sabe da minha paixão por esses nomes que citei nesse pequeno ensaio sobre meu ano de 1977. Ainda hoje minha alma vaga em 77. Estou aqui e estou lá! Esse é meu espírito, minha ideologia, minha chama mais profunda que ainda arde e sempre arderá e isso nunca vai mudar!!!!!!!!!! ------------------------------------------------------------------------------------------------->>>>> eletrocomments: ______________________________________________________________________________________________________ |