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4.6.04
o texto: Rio, 04 de junho de 2004 O rei do rock Carlos Albuquerque A música clássica perdeu um reforço de peso. Edson Milese de Albuquerque Cerqueira não pôde ir muito longe em suas aulas de piano porque, como explicou sua professora, tinha um problema grave: dedos pequenos. Segundo ela, aquele jovem e dedicado estudante jamais iria conseguir tocar Liszt perfeitamente. — Por causa disso, não consegui completar o curso e fiquei revoltado. Acho que eu virei punk naquele momento. Virou mesmo. Passados quase 30 anos daquela rejeição, ele não se importa mais com o tamanho dos dedos. Hoje, Edson é mais conhecido como Edinho e usa suas mãos para tocar White Stripes em vez de Bach, Rapture em vez de Chopin, e Radiohead em vez de Wagner. O pianista virou DJ. E pode ser visto em ação hoje no Sygno Music Club, amanhã na Casa da Matriz, e domingo no Dama de Ferro. Durante seus “concertos”, o silêncio é absolutamente desnecessário. A agenda cheia no fim de semana não é por acaso. Há 16 anos em atividade, Edinho é o melhor DJ de rock do Rio. Verdadeira filipeta ambulante da noite carioca, tendo comandado festas em quase todas as casas noturnas da cidade, ele conseguiu se manter atualizado, superando a barreira do tempo (tem 42 anos) e acumulando milhas de respeito e admiração no percurso. — O Edinho tem um conhecimento musical absurdo e o talento de juntar estilos variados com perfeição — diz Roberto Pedroza, produtor de eventos e ex-sócio da extinta Dr. Smith, onde o DJ foi residente por seis anos. Antes disso, porém, ele batia ponto quase todos os dias no Crepúsculo de Cubatão, legendário point alternativo na virada dos anos 80/90 e que tinha Ronald Biggs como um dos donos. Foi no Crepúsculo que nasceu o DJ Edinho. - Eu vivia sempre lá e um dia um dos donos, o Tristan, pediu-me para substituir o DJ, que era o Paulo Futura, que não ia poder tocar — lembra. — Eu entrei na cabine e só saí quando já era quase de manhã. Foi um momento inesquecível. A partir dali, acendeu uma luz e vi que queria ser DJ Na verdade, Edinho já havia sido influenciado por um outro DJ: seu pai. Responsável pela caçada que culminou com a morte do guerrilheiro Carlos Lamarca, em 1971, o general Nílton Cerqueira, ex-secretário estadual de Segurança Pública, era, segundo seu filho, um DJ também. - Ele botava som nas festas do Colégio Militar. Até hoje, tem aqueles discos, que vão de Noel Rosa a Ataulfo Alves. Foi com ele e com minha mãe, que é pianista frustrada, que passei a gostar de música. Ligado à música, de fato, Edinho sempre foi. Durante anos, enquanto a carreira de DJ não se firmava, ele dividia seu tempo entre a banda de ska Kongo (do divertido hit “Biquini defunto”) e o trabalho de vendedor numa loja de discos em Copacabana. - Era Roberto Carlos e samba o dia todo na cabeça. O sobrenome conhecido fez com que repercutisse em dobro um contato imediato (e quase fatal) que Edinho teve com um protótipo de pitboy, em 1994. Ele foi esfaqueado dentro da cabine do DJ, na Basement, na Galeria Alaska. - O cara era um louco e tinha se envolvido numa briga com os seguranças — lembra, sem saudades. — Ele voltou na semana seguinte, totalmente alterado e querendo confusão. Do nada, atacou um amigo meu, que tentou se proteger na cabine. Acabou sobrando para mim. Só não foi pior porque fui protegido pela minha barriga (risos) . Recentemente, Edinho se viu no meio de outra confusão, mais branda, envolvendo seu nome, a Alien Nation (uma das mais tradicionais festas de rock da cidade) e a casa noturna Bunker. — O dono da Bunker ficou com ciúmes porque o Edinho ia tocar na casa de um ex-funcionário e exigiu exclusividade — conta Wilson Power, produtor e DJ da festa. — Disse que isso era impossível. Ele pediu então que o Edinho fosse desligado da festa. Não aceitei e fui mandado embora. Foi uma tremenda injustiça porque ajudamos a criar a casa. - Foi só uma divergência entre a festa e a casa - ameniza Fabrizzio Martin, produtor da Bunker. - Não temos nada contra o Edinho e não queremos criar desavenças com ninguém. Escaldado com as picuinhas e as guerras de vaidades da noite, Edinho diz que o episódio Bunker deixou uma boa lição. - Os DJs são muito desunidos. Nesse caso, porém, a solidariedade foi grande. Seria legal se nos organizássemos melhor — diz ele, que mora com os pais e garante viver apenas das festas em que toca — A noite do Rio é difícil e o público, muito instável. O DJ acaba ficando numa posição muito frágil. Alguém já sugeriu que Edinho entrasse para a política (seu pai foi deputado federal) para defender as causas “alternativas”. Prestes a se formar em comunicação social, ele jura que não foi seduzido pela idéia. - Minha política é a do The Clash — diz, citando um dos seus grupos favoritos. — Sou anarquista. Vivo de música e sou feliz assim. acho que ele exagerou um pouco, mas fiquei MUITO feliz ------------------------------------------------------------------------------------------------->>>>> eletrocomments: ______________________________________________________________________________________________________ |