eletroboogie


29.3.04

sábado passado (27/03) rolou uma festa produzida pela minha amada amiga gabi em comemoração aos 20 anos de fundação do crepúsculo de cubatão. foi uma festa muito legal e divertida, reencontrei amigos e pessoas que conheci no crepúsculo e isso foi demais, mas tenho que lembrar que, na verdade, o cubatão só abriu em dezembro de 84. tudo começou há 20 anos. 1984, a época das primeiras festas new wave do Rio.

a primeira que fui era uma festa lançamento do terceiro disco do culture club na papagaio disco club e nela aconteceu um concurso do sósia mais fiel do boy george, foi no meio de semana (uma terça se não me falha a memória) e foi um arraso.

logo depois, lá mesmo na papagaio, começaram a rolar as festas do club new wave e quem era o dj das festas era o josé roberto mahr. foram 7 meses de muita alegria aos sábados e lá conheci um número enorme de pessoas que considero minhas amigas até hoje: luis cláudio, dudu, claudinha pipoca, cris da urca, batatinha, satanésio, tantão, olmar, betinho, patrícia, paulinho, mira, chico pico, bebel, vanessa, muita gente...

o crepúsculo abriu logo após o fechamento da papagaio. o club new wave ainda rolou em alguns lugares: roller skate e um outro espaço que não me lembro o nome. depois disso ficou um tempo sem rolar e só voltou quando a metrópolis abriu, mas ai já havia trocado de nome e assumido o mesmo nome do programa que o zé fazia na rádio universitária da estácio: novas tendências.

mas o que realmente queria dizer é que o crepúsculo NUNCA foi uma boate gótica, lá se tocava de tudo do que existia de mais moderno na época. A boate era totalmente linkada com a europa e assim que os bons sons eram lançados lá já estavam tocando por aqui também. as pessoas, hoje em dia, pensam que só se tocava som dark na pista. isso é uma tremenda balela e virou verdade por conta daquela máxima do goebbels: uma mentira contada mil vezes acaba virando verdade....




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17.3.04
hoje pela manhã, conversando / discutindo com o thiago filardi (garoto bacana que apesar da pouca idade conhece bastante de música e defende suas idéias com o vigor típico dos jovens) sobre rock e influências musicais. deu-me o estalo de escrever sobre como sou atraído pela música. vou deixar para falar sobre isso no final e vou contar sobre a conversa com thiago.

em determinado momento do papo, thiago começou a falar de que como jeff buckley e nick drake são ótimos letristas. concordo plenamente, mas me dou ao direito de não achá-los tão fundamentais como ele afirmou na hora. vocês vão entender no final!
de jeff e nick o papo passou para bob dylan e beatles. segundo o thiago, o bob influenciou os beatles e que eles melhoraram demais por conta dessa influência.
sim, é óbvio que influenciou e é ótimo que tenha influenciado. mas foi influenciado - e muito - por eles também.
a gente percebe facilmente a mudança que houve na qualidade / conteúdo das composições ocorridas depois da primeira turnê americana do "quarteto fantástico", também percebe-se onde dylan mudou: a famosa guinada rumo à eletrificação de suas canções, que fez com que ele fosse defenestrado / xingado / crucificado pela "inteligentzia" folk americana. certo?

não sou louco de afirmar que não reconheço a importância que robert zimmermann tem para o gênero musical pelo qual sou apaixonado, mas não é por isso que tenho que ter discos de dylan. não os tenho, não me agrada em nada a música de bob interpretada por bob. amo byrds, adoro hendrix tocando músicas de dylan, existem diversas regravações de músicas dele que gosto. mas não gosto do próprio. pode parecer estranho, mas não gosto MESMO!!!
ps - é óbvio que algumas coisas eu gosto, mas no geral não!!!

ele (thiago), em determinado momento, afirmou ser dylan a personificação do próprio rock, que tudo o que veio após era / é dylan - inclusive o punk -, pela constatação de que ele vai contra tudo o que existe e todos os padrões estabelecidos. um guerrilheiro, em suma.
não nego que haja essa influência, mas não acho que seja nessa grandeza. outras figuras - não tão famosas como, mas tão importantes quanto - deram sua contribuição: iggy pop (stooges), lou reed (velvet underground), mc-5, eddie cochran, stockhausen e por aí vai.

thiago não entende o porque de eu não ser fã de dylan. vou explicar: eu gosto de música. gosto de melodia antes de tudo, se uma melodia me agrada eu depois busco saber o que está sendo dito na música.
essa é a forma como "sinto" a música: a melodia vem sempre antes. se o que ouço me atrai procuro saber o que é. para mim a letra complementa. se fosse o contrário seria literatura musicada e não música.

existe coisa mais rock que WOOO-BOP-A-LULA-WAHH-BAM-BOOM ou GABBA GABBA HEY??
e o que isso significa?? TUDO E NADA.
é isso!!!!

uma menina que estava por perto e estava escutando a conversa / discussão me perguntou:"e o rap ?"
rap é antes de tudo contestação, luta e panfletarismo. é movimento social e a música está inserida nesse contexto e não pode ser extraída dele. detalhe: gosto e muito de rap.

sou um melônamo. antes de tudo eu me interesso pela música pura e simples, pelos sons.



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10.3.04
percebam como um belo texto - no caso, uma crítica ao london calling do clash - pode te influenciar....
a autora é a ana maria bahiana, que hoje em dia é correspondente de "o globo" em los angeles

UM SUSTO, UMA PAULADA: CLASH!! E A VIDA CONTINUA

Aí você vem vindo um dia pela rua achando que talvez não haja futuro mesmo, como diziam os Sex Pistols: "Nooooooooo fuuuuuuuture, noooooooo future for you". Ou que a tal da maturidade chega mesmo e seus ouvidos ficam mais grossos ou que esses samboleros de desencontros amorosos aí no rádio até que não são tão chatos assim ou que, caramba, às vezes é melhor pôr uns patins e comprar umas joelheiras rosadas e uns fones de ouvido pra ficar plugado na Rádio Cidade.

Aí você vem pela rua se perguntando aquelas jogadas tipo pra que ?, o que foi feito ?, como é que é ?, quem está sendo enganado ?, e vem pensando que não há mais nada, nada, nada, nada mesmo que faça seu coração bater mais depressa, ou que dê aquele gelado na boca do estômago ou que possa te acordar e, porra, te fazer sair dessa rua ou desse quarto ou te ponha dançando ou te dê coragem ou alegria ou, porra, esperança.

Aí você ouve: "Londres está chamando!!!!" (Londres ? Como ? Isso já não morreu ?)

"Londres está chamando o submundo / Saiam daí garotos e garotas / Londres está chamando / Não olhem para nós / Aquela beatlemania falsa já caiu por terra / Londres está chamando os imitadores / Esqueça isso irmão, faça as coisas do seu modo...."

A voz é verdadeira, é humana e tem raiva, desespero, gana de reagir. A bateria é implacável - o modo como ela rosna cá na frente, o modo como ela vira ponto de exclamação, grito. E há duas guitarras e um baixo, mas isso você demora um pouco mais a perceber porque ninguém está se exibindo e tudo soa como um único tecido vivo; negro, básico.

Alguma coisa saída da noite dos tempos de rock'n'roll. Do Delta, de Memphis, de Detroit, do bairro jamaicano de Londres. Alguma coisa muito primitiva e muito refinada, uma barricada sonora que você agora ouve melhor, tem tantos pequenos detalhes e contracantos e riffs, que tornam quase impossíveis não fazer os dedos dos pés mexerem e as mãos ficarem suadas e inquietas e (será mesmo ?) seu coração bater mais veloz.

Oh! Sim!!! É claro que você não é bobo. Você já ouviu muitas coisas boas ultimamente, ouviu bons discos de reggae que até te fizeram dançar e Tom Petty, Joe Jackson, Bram Tchaikovsky e coisas bem bonitas nessa linha que parece que sou uma crítica aí (aqui?) chamou de fundamentalismo rock'n'roll. Você sabe que há vida além do funk e até acha essas coisas todas muito boas e compra os discos.

Mas isto aqui é diferente. Há alguma coisa aqui. Uma espécie de raiva. Uma espécie de guerra. A convicção de um condenado à morte clamando inocência. Alguma coisa que você não ouvia desde...desde...desde os Stones em 69 ? (aquilo existiu mesmo ?)...Dylan em 64 ? (existiu mesmo ?)...Who em 69 ? (mesmo ?)...

Você compra um jornal inglês e primeira leva um puta susto porque tem lá centenas de grupos que você nem sabia que existiam. Mas fica frio (jura não mais comprar a Rolling Stone). Lê que Londres chamava via um grupo chamado The Clash: Mick Jones, Joe Strummer, Paul Simonon e Topper Headon. Todos londrinos "of course".



Lê que eles dizem - e eles são até chatos no seu proselitismo faça-você-mesmo. Você está acostumado a desconfiar e desconfia e eles insistem tanto no pouco que sabem, no muito que pretendem. Você acredita um pouco porque, porra, eles estão como você afinal de contas; tão perdidos e incendiários como você.

Você compra os outros dois discos deles. Não são tão bons, mas você entende tudo melhor: na barricada sonora de "The Clash"; nas guitarras imensas de "Give'em Enough Rope". Você ouve a mesma convicção, a mesma fagulha que você não consegue pegar.

Londres está chamando. Você ouve sem cessar.
Você ouve: "Eu escutava o pessoal do andar de cima / gritando e brigando toda a noite / e esse som foi meu primeiro sentimento /... / eu compro meu superálbum de discoteca / esvazio uma garrafa / e me sinto um pouco livre"... (a bateria é demente; ela costura tudo e segura tudo, até quando aquela linda guitarra faísca e geme tão brava que você enlouquece de desejo).

Você ouve: "Quando baterem na sua porta / como você vai atender ? / Com as mãos na cabeça ? Ou no gatilho de um revólver ?" (você tem medo - baixo, guitarra, bateria ondulam num quase reggae, o som da voz é escuro; aqui há um túnel, um pesadelo).

Você ouve: "Trate-me bem / garota de programa / pó da vida onde não há vida / então, trinca cara, trinca..." (tudo num fuso só, um fuzil só, uma lâmina aguda de voz e eletricidade, tudo nervoso e cocainímico, mas Joe Strummer está rindo. Está rindo, cara, rindo!! E você pula pela sala rindo também).

Você ouve: "De cada porão imundo em cada rua imunda / Eu ouço o som das palmas marcando cada batida / E isto é só a batida do tempo / a batida que nunca passará" (no fim da música Joe Strummer murmura, enquanto duas guitarras fazem a coda mais emocionante que você conhece: "Nós vamos dar trabalho / Nós vamos botar pra quebrar / raise trouble, raise hell").

Você acredita. Lá no meio há uma virada da bateria que poria Keith Moon no céu e Joe Strummer canta como um galo enfurecido. (Além do mais isso aqui é musica de macho).

Confundi vocês, queridos?

E quando você pensa que acabaram os dois lados deste banquete, desta jornada até as profundezas da louca cidade ocidental, do fim do século, deste delírio acordado -
acordadíssimo - deste acesso de lucidez luminosa que não lhe poupa dor e tesão e paixão e prazer, desta desvairada esperança de que o rock'n'roll existe mesmo e que ainda há coisas possíveis a serem feitas enquanto toda esta merda não explodir de vez.

Pois bem, quando você, suado e estafado acha que acabou, não acabou - uma coda majestosa se ergue das sombras do disco (não está escrita na capa, você ainda tem tempo de perceber) e empurra você de volta à rua, àquela rua, a tal por onde você passava um dia achando que talvez não houvesse futuro mesmo.

Alguma coisa quebrou, irremediavelmente, em seu peito.

Você está vivo!!!!
(Ana Maria Bahiana, Som Três nº 19 / ano:1980)





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